Documentário traz desafios e motivações de jovens na EJA

Bastidores do filme Jovens Fora de Serie

“Fora de Série” é parte de pesquisa feita pelo Observatório Jovem do Rio de Janeiro, grupo de estudos sediado na UFF

por Fernanda Nogueira 3 de julho de 2018 – Porvir

“Eu gosto de estudar” é a primeira frase do documentário “Fora de Série”, que fala sobre a vida de jovens alunos da EJA (Educação de Jovens e Adultos). Lançado em março, o filme integra uma pesquisa do Observatório Jovem do Rio de Janeiro, grupo de estudos sobre a juventude, sediado na UFF (Universidade Federal Fluminense) e que conta com pesquisadores de outras universidades cariocas.

A afirmação do início do texto é de José Gerardo, uns dos entrevistados do filme. Como ele, os outros personagens mostram, em conversas individuais, seu interesse em aprender e em concluir os estudos, mesmo com as dificuldades que enfrentam, como a necessidade de aliar trabalho, escola e família, falta de dinheiro para transporte, vergonha por terem abandonado a escola no passado, preconceito e vício em drogas.

A segunda parte do filme traz uma conversa com um grupo de jovens em que o professor Paulo Carrano, diretor do documentário, explica o que é a pesquisa e pede para falarem sobre suas vidas. “Queríamos saber o que eles têm a dizer sobre a experiência de escolarização, sobre a vida deles, sobre a interface entre as experiências de vida e a escola como apoio ou entrave para a vida juvenil”, diz a professora da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Ana Karina Brenner, integrante do Observatório Jovem do Rio de Janeiro e uma das produtoras do filme.

A terceira parte é a mais emocionante, quando passa a contar a história dos jovens Maria Nunes, Alexandre Guimarães e Jhonata Barbosa. Com diferentes trajetórias, eles apresentam seu cotidiano – trabalho, lazer, famílias ­– e explicam como consideram importante a volta à escola.

O documentário já foi visto por cerca de 2.400 pessoas em 140 exibições. Quem quiser organizar uma sessão, pode entrar na página de acesso ao filme e preencher um formulário para poder baixar o arquivo e projetá-lo. É preciso se comprometer a não disponibilizar o filme na internet, para que ele possa concorrer em festivais de cinema. A página no YouTube tem depoimentos da equipe.

Bastidores do filme Jovens Fora de Serie
Bastidores do filme “Jovens Fora de Serie”, UERJ, Rio de janeiro, Brasil.

Segundo Ana Karina, em exibições e debates, os pesquisadores perceberam que muitos jovens da EJA se identificam com os personagens. Viram ainda que o filme despertou a reflexão dos professores. “O filme é apoio sem ser espaço de crítica direta a eles. Em geral, se coloca muita responsabilidade (nos educadores) sem dar estrutura e suporte. Não tínhamos intenção, mas eles usam como suporte para repensar suas práticas”, diz. Confira a entrevista com Ana:

Porvir – O que a pesquisa buscava? Quais foram as conclusões?
Ana Karina – Jovens que não se escolarizam na idade considerada correta vão para a EJA, modalidade de ensino que se propõe a assegurar a educação destas pessoas. A pesquisa chega na EJA pelo recorte de idade. A EJA deveria ser uma opção a mais, mas tem sido obrigatória para jovens fora de série. Queríamos saber como vivem esta trajetória truncada de escolarização e como isso incide na vida deles. Sabemos que a escola produz a juventude, assim como o trabalho produz a juventude. Sabemos que há entraves nesta relação. Desde os anos 80, se diz que o trabalho tira o jovem da escola, mas as pesquisas também mostram que leva o jovem de volta. O aumento da escolaridade melhora o trabalho. Onde estão os entraves em ter uma dupla jornada, de escolarização e de trabalho? Entendendo melhor isso podemos informar aos gestores maneiras de melhorar a escola. É uma relação difícil. As jornadas de trabalho são extensivas. Os jovens estão menos protegidos do que os adultos. São mais fragilizados no trabalho. A política de escolarização não dialoga com os modos do trabalho, com o mundo do trabalho e com a oferta de trabalho para jovens. A escola trava a entrada quando se atrasam. As escolas estão longe do trabalho. Há um descompasso enorme entre trabalho, escola e sujeito juvenil. É como se ele quisesse se atrasar, como se fosse passível de punição. A escola pouco dialoga com o que já sabem, com o que aprendem no mundo da vida e do trabalho. Em geral, escola e professores não fazem a menor ideia do que fazem além de serem alunos. Tratam o jovem exclusivamente como aluno e não contemplam outras dimensões da vida, que são também educativas. A escola continua sendo o centro de educação formal. Tem certificado, mas não é única em saberes e conhecimentos. Se dialogasse mais, a relação seria de maior qualidade.

Porvir – Que discussões o filme espera levantar?
Ana Karina – Primeiro, mostrar a necessidade de ouvir mais. Os jovens têm muito a dizer sobre a trajetória escolar, sobre suas próprias questões, demandas e possibilidades. Vemos nas pesquisas que reconhecem os problemas e limites das escolas, mas têm uma tremenda generosidade com os professores e com as escolas. Em geral, criticamos muito os jovens. Dizemos que não querem nada, que não querem estudar. Não é só isso. Eles têm críticas e apontam caminhos sobre como melhorar a relação. Isso é importante. Depois, vem a variedade de oferta de EJA. Uma oferta única não contempla o público. Pegamos só os jovens, de 18 a 29 anos, na pesquisa. Já é tão diverso. Para todo o público, adulto e idoso, tem uma variação ainda maior.

Porvir – Como escolas e governos podem receber melhor os alunos?
Ana Karina – É preciso oferecer a EJA perto do trabalho, do público. Isso exige que os governos façam mapeamento e georreferenciamento da demanda para melhor estabelecer a oferta. Saber, com dados do IBGE, onde moram e onde trabalham as pessoas de baixa escolaridade. Os tempos de estudo precisam ser variados. O MEC, no período pré-Mendonça (ex-ministro Mendonça Filho), já tinha ofertas variadas e específicas, para ribeirinhos por exemplo. Há públicos com organizações do trabalho e do tempo diferentes e incompatíveis com o tempo semestral. Embarcados em plataformas de petróleo são outro exemplo. A educação no campo precisa de oferta com temporalidade. A oferta de EJA está cada vez mais concentrada no período noturno. Deixa de fora o trabalhador noturno. Mães demandam que escolas estejam perto das creches. Isso é um achado de pesquisa desde o governo Lula. Estudantes diziam que poderiam deixar o filho na creche e ir para a escola, mas se for longe, não dá. A oferta precisa ser mais variada no tempo, no espaço e no período, com turno diurno e noturno. A organização em semestres não pode ser única. Para alguns públicos, funciona ter aula todos os dias, para outros não, menos ainda por quatro horas seguidas. A EJA no Rio tem salas vazias. A oferta é inadequada à demanda. Se oferecer na hora e no lugar errado, o público não consegue frequentar.

2 comentários

  1. Olá prof. Paulo. Gostaríamos de exibir este documentário e discutí-lo com sua presença no IV Encontro do Projeto de Extensão que coordeno aqui em Natal-RN, que acontecerá em fins de novembro ou início de dezembro. Se for do seu interesse nos envie seu email de contato para conversarmos? Abraços.

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