Documentário “Fora de Série” mostra a importância da voz dos estudantes para se entender e transformar a educação

por João Marcos Veiga – Portal da ANPEd

“Essa acho que é a primeira vez que tenho uma aula assim, pra um aprender com os acertos e os erros dos outros.” A fala parte de um jovem em companhia de outros quatro ao redor de uma mesa. Cada qual expõe ali uma variedade de desafios que tanto contribuíram para os afastar da escola. Em comum, a persistência de transpor tais barreiras – ali não existe erros, mas caminhos tortuosos que colocam a educação como um sonho e promessa de melhoria de vida. Gravidez precoce, racismo, preconceito geográfico, imposição de trocar os estudos pelo trabalho para o sustento familiar, uso de drogas, violência doméstica. Os perfis apresentados soam quase como arquétipos brasileiros, personagens que já sabemos bem as agruras, pelas silhuetas pintadas pela mídia e pelo pouco que conhecemos da realidade social brasileira.

Bastidores do filme Jovens Fora de Serie
Grupo de Discussão – Filme de Pesquisa “Fora de Série”. Foto: Eduardo Santos

O diferencial do documentário “Fora de Série” está em se propor a ouvir a voz e revelar as cores (ainda que muitas vezes tristes) da trajetória e dia-a-dia destes jovens. Como afirma o diretor em dado momento do longa, o professor Paulo Carrano, “se a gente escutar mais os alunos, a escola pode melhorar. Essa é a nossa percepção”. E esse propósito é assumido com muita competência, comprometimento e respeito por parte do Observatório Jovem, grupo de pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) que assina o trabalho, que será lançado no dia 08 de março no Cine Arte da instituição.

A cada relato, emerge uma faceta de um Brasil desigual, perverso, injusto, que impõe um foço entre a população economicamente mais vulnerável e o acesso à educação no país. Logo de início fica claro que não basta a existência de vagas, no caso as turmas da EJA (Educação de Jovens e Adultos) em diferentes escolas do Rio de Janeiro. Cada um vivencia uma luta pessoal para conseguir chegar à sala de aula, transpondo desafios tidos por eles com impossíveis antes do primeiro passo de retornar aos estudos e constatar quantas outras pessoas estão na mesma situação e prontas para criar redes de solidariedade. E quando por fim se veem de volta à escola, começa uma nova batalha: conciliar trabalho e estudo, compreender as disciplinas, se enturmar e, principalmente, antever os limites da qualidade da educação pública.

Cabe ao estudante tatear um ambiente desconhecido, em que a instituição incentiva o Enem, mas não fornece suporte ou mesmo informações básicas para o aluno de primeira viagem, além de nivelar a turma por baixo, por incapacidade de reconhecer as singularidades daqueles que estão nas carteiras. Ainda assim, os entrevistados enaltecem o esforço dos professores de transmitir conhecimento frente a realidades igualmente duras. “Tem professores que chegam na minha turma à noite e que começaram a dar aula às sete horas da manhã. Tem um cansaço inevitável. Eu acho que se tivesse uma melhor remuneração, o professor conseguiria trabalhar menos e focar mais na turma”, afirma um dos jovens. Na sequência, um colega completa: “pra mim o professor é a peça chave desse quebra-cabeça, se ele não é valorizado, tem menos vontade de ensinar”.

Bastidores do filme Jovens Fora de Serie
Filme de Pesquisa Fora de Série. Foto: Eduardo Santos

Se a falta de conhecimento é um desafio a ser superado, o acúmulo de vivências, quando tortuosas, também nubla a visão de quem quer progredir. Uma das entrevistadas, após relatar que o nervosismo não a fez perceber a parte referente à redação na prova do Enem, posteriormente considerou melhor assim quando se deparou com o tema daquele ano: violência contra mulher. “Eu não ia conseguir escrever aquele tema, porque eu ia chorar muito. Foi até bom ter pulado, porque aquilo ali é o que eu já passei, eu apanhei do meu pai, apanhei do pai do meu filho”, conta.

Os depoimentos muitas vezes são fortes, mas sem resvalar no sentimentalismo ou exploração daquelas histórias. Ponto para a equipe, que se reveza na realização das entrevistas (Ana Karina Brenner, Marcio Amaral, Paulo Carrano e Patrícia Abreu), proporcionando uma escuta qualificada, com perguntas certeiras (“o que te puxa pra dentro da escola e o que te puxa pra fora?”; “você já tinha noção de que aquilo era racismo naquela época?”), com espaço mesmo para bate-papos leves e reflexivos. Essa qualidade de produção se estende ao apuro de imagens (JV Santos, Luciano Dayrell e Caio Miranda), que flertam com o experimentalismo em belas tomadas externas, seja explorando foco e profundidade num simples emaranhado de vigas ou no balé das pernas que percorrem as ruas da metrópole, ampliando a reflexão proporcionada pelo documentário. Outro destaque, que dialoga sobretudo com essas imagens, é a trilha sonora original, composta por Lucas Fixel e Thiago Sobral, trabalhando uma miríade de sonoridades que vão de temas reconfortantes ao estranhamento, tecendo um quadro complexo e envolvente para o longa, que tem edição de Luciano Dayrell.

Mas sem dúvida o maior ganho do documentário está numa proposta de explorar o uso da fotografia e mídias pelos próprios entrevistados. Num primeiro momento, a dinâmica colocada pelo Observatório Jovem apresenta imagens de terceiros para que eles projetem suas próprias vidas ali, fazendo correlações. Assim, uma pista vazia, com um céu ao fundo gera a seguinte observação por um deles: “eu sou pernambucano. Quando vim pra cá ficava olhava pela janela do ônibus e pro céu o que eu estava deixando pra trás pra construir de novo aqui. Eu vejo isso aqui”. Num segundo momento, os jovens são estimulados a registrarem seu próprio cotidiano, em foto e vídeo. Nas entrevistas em que eles explicam o que focalizaram, emerge sobretudo aquilo do qual eles têm orgulho: os filhos, o emprego, as conquistas materiais – uma casa em construção, pequenos objetos de diversão. Pela autoestima, portas que abrem e sentimento de pertencimento social, o estudo é fator decisivo nessa nova etapa de suas vidas, que arranca sorrisos fáceis em seus rostos.

Bastidores do filme Jovens Fora de Serie
Filme de Pesquisa Fora de Série. Foto: Eduardo Santos

“Fora de Série” certamente se inscreve a partir de agora no rol de filmes obrigatórios sobre educação no país, que inclui trabalhos como “Pro dia nascer feliz” (2005), de João Jardim, e “Últimas conversas” (2015), de Eduardo Coutinho (finalizado por João Moreira Salles após o assassinato do diretor). O documentário aqui em questão, porém, traz esse diferencial de serem também os entrevistados protagonistas no processo de construção do trabalho. Existe ali um movimento pendular entre depoimentos em profundidade e o acompanhamento dos jovens em suas jornadas – cruzando o Rio de Janeiro entre morro e asfalto, bairros afastados e centro comercial para concretizar o sonho do estudo e a necessidade do trabalho. Nesse intervalo, as gravações dos próprios entrevistados revelam cenas familiares e cotidianas de grande riqueza para se compreender quem são essas pessoas. Um deles assume quase o papel de repórter, ao filmar o longo trajeto entre fechar o comércio com o pai no centro e entrar no metrô lotado para chegar horas depois em casa: “estão vendo, esta é a vida do trabalhador brasileiro”.

Outro diferencial é ser esse um documentário que parte da universidade, que assume seu papel de pesquisa, interlocução, de encarar os desafios da educação brasileira, ampliando tal debate junto à sociedade. O filme igualmente é lançado num momento oportuno e urgente para se pensar tais questões, frente a cortes de investimento na educação, reformas frias e que desconhecem a realidade dos estudantes brasileiros. Alexandre, Alexsandro, Anídia, Clarice, Ellen, Guilherme, Jhonata, José Dionísio, José Gerardo, Leonardo, Maria, Maycon, Michael, Pedro, Rafael, Tamiris, Tatiana, Thayonara e Thiago. Em comum a história deles nos mostra o quanto programas louváveis como a EJA podem transformar vidas e como o país ainda precisa avançar economicamente e socialmente para dar dignidade e mínimo suporte para que eles se dediquem aos estudos. Mais do que isso, nos mostram como temos que negar veementemente soluções fáceis, projetos que fazem tábua rasa da educação. Em particular, as lágrimas e risadas do filme nos dizem que para mudar o todo é preciso primeiramente compreender quem são esses jovens, cada qual com sua história, fora de série.

*”Fora de Série” é dedicado a Raquel Stein, produtora do documentário, falecida em 2017 em acidente automobilístico.

É possível se cadastrar na página do filme para organizar uma exibição pública. A equipe de produção enviará o arquivo online em boa qualidade

imagens_filme

2 comentários

  1. EU FUI! …e sinceramente gostei muito do que foi apresentado. Não sou da área pedagógica e muito menos adepto a esse governo golpista que além do desmonte material que tem arruinado o país, está também promovendo mudanças radicais na educação e cultura, uma delas foi muito bem exposta ontem pelo jovem Ator Alexandre Guimarães, num “bate bola” logo após o longa metragem, que concluiu que: A proposta do MEC se resume em preparar apenas operários ao invés de preparar pessoas para todas as áreas importantes para o crescimento do país, inclusive as que tratam de questões políticas. Talvez se esse pensamento fosse explanado pelo o outro jovem Ator Jhonata Barbosa, esse teria sintetizado: queremos ser também cerejas e não somente recheio (rsrsrs). Antes do documentário, eu tinha uma vastas noção do que é estudar com dificuldade, porque alem de estar atualizado com as noticias diárias também fui estudante de escola pública, claro que em outra época e com condições bem menos precárias que a dos Alunos/ Atores do filme. Sabemos que são vários os obstáculos para se alcançar uma faculdade, mas ao assistir o filme vemos individualizado esses transtornos e cada uma com um com diferente grau de dificuldade, daí a importância desse brilhante trabalho dos Profs. Paulo Carrano, Ana Karina e toda a equipe desse filme. parabéns à todos!!!

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