A EJA pelo olhar do estudante

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Documentário busca compreender os processos de escolarização de alunos da Educação de Jovens e Adultos do Ensino Médio

Entrevista com Ana Karina Brenner (UERJ) e Paulo Carrano (UFF) – por Karolina Machado – Revista Linha Direta Digital

José Gerardo, Tamiris da Silva e Clarice Santos são alguns dos jovens alunos da EJA que refletem sobre seu percurso educacional no documentário Fora de série. O filme, que tem direção de Paulo Carrano e produção de Ana Karina Brenner, é fruto de pesquisa realizada por pesquisadores da UFF, Uerj e UniRio, com apoio da Faperj e do CNPq.

O primeiro momento da pesquisa aconteceu em novembro de 2012, quando foi aplicado um questionário estruturado para 963 pessoas da cidade do Rio de Janeiro, com idades que variavam entre 16 e mais de 50 anos, e participantes de turmas de EJA e do Projeto Autonomia (Programa de aceleração de estudos para alunos em defasagem idade/série).Com o intuito de pesquisar o público jovem, 593 pessoas foram selecionadas desse banco de dados. A amostra reuniu estudantes, com idades entre 17 e 29 anos, das três séries do Ensino médio e dos três turnos escolares. 

Em 2015, foi iniciada a segunda etapa da pesquisa, ocasião em que o documentário Fora de Sériecomeçou a ser efetivamente gravado com a realização de entrevistas narrativas biográficas com os jovens que declararam interesse em participar dessa iniciativa. “Estivemos especialmente preocupados em compreender os entraves que jovens, notadamente os de classes populares, enfrentaram para progredir ao longo dos anos de escola. A expressão fora de série tem dupla conotação: são, ele e elas, ‘fora de série’ porque repetiram de ano e/ou abandonaram a escola, mas também porque suas trajetórias denotam esforços significativos de superação de dificuldades sociais, materiais e simbólicas, em seus cursos de vida, que evidenciam o valor que conferem à educação”, conta Paulo Carrano.

Fora de série foi lançado em março de 2018, teve cerca de 400 exibições para um público aproximado de 8 mil pessoas. Agora, a partir do mês de maio, ele fica disponível para download e exibição gratuita na página http://www.filmeforadeserie.com. O documentário conta com versões legendadas em inglês, espanhol e descrição para surdos. Em entrevista à revista Presença Pedagógica, Paulo Carrano e Ana Karina Brenner falaram mais sobre o filme-pesquisa.

Ana Karina Brenner, produtora e Paulo Carrano, diretor do documentário Fora de Série (Fotos: Divulgação)

De qual demanda surgiu a produção do filme Fora de série?

Ana Karina Brenner (AKB) – A Educação de Jovens e Adultos (EJA) é historicamente secundarizada no Brasil, na implementação das políticas que asseguram o direito à educação e em seu financiamento. O que buscávamos com a pesquisa era conhecer, de forma mais aprofundada, quem são os jovens sujeitos destinatários dessa modalidade de escolarização básica que restitui o direito à educação negado na chamada “idade certa”. A conclusão do nível básico de ensino deveria se dar, idealmente, aos 19 anos.

Paulo Carrano (PC) – Nosso grupo de pesquisa, o Observatório Jovem do Rio de Janeiro, desde a sua criação, no ano de 2001, produz conhecimentos sobre as diferentes formas de ser jovem e de viver a condição de juventude no Brasil. Nessa perspectiva, compreendemos que a conclusão de um Ensino Médio de qualidade se apresenta como uma sensível fronteira de direitos que vem sendo sonegada para uma parcela expressiva da juventude brasileira. Para se ter uma ideia dessa fronteira ainda intransponível para muitos, 36,5% dos jovens de 19 anos não completaram o Ensino Médio no ano de 2018. Destes, 62% não frequentavam mais a escola, e 55% pararam de estudar ainda no Ensino Fundamental, conforme dados do IBGE/PNAD Contínua 2018.

O Fora de série é um filme de pesquisa realizado com estudantes do Ensino Médio da EJA de 14 escolas públicas do Rio de Janeiro. Qual o perfil desses estudantes? 

AKB – Partimos de uma base de dados composta por 593 questionários respondidos por jovens dessas 14 escolas de Ensino Médio, distribuídas em quatro distintas regiões da cidade do Rio de Janeiro. Desses, 51% eram homens, e 49%, mulheres, distribuídos nas faixas de idade entre 15 e 17 anos (1,2%), 18 a 24 anos (84,8%) e 25 a 29 (14%). Assim, nosso mais expressivo contingente de jovens participantes da pesquisa se encontrava entre 18 e 24 anos, faixa que concentra a maioria das matrículas da EJA do Ensino Médio no Brasil, segundo o Censo Escolar do Inep de 2016. O perfil dos entrevistados é majoritariamente composto por negros (61%, dos quais 41% são autodeclarados pardos, e 20%, pretos). E também pobres, visto que 45,8% viviam em famílias cuja renda variava entre ½ e dois salários-mínimos mensais. Ao considerar raça e renda, verificarmos a maior incidência de pobreza entre os jovens negros. Ou seja, 25% dos jovens negros viviam com até um salário-mínimo, em comparação a 19,4% dos brancos que recebiam a mesma quantia. Dos jovens negros, 68% viviam com até dois salários-mínimos, enquanto 56% dos brancos viviam com a mesma renda. Considerando o sexo dos respondentes, percebe-se que a pobreza se evidencia mais nas jovens mulheres. Entre os jovens pesquisados que trabalhavam, 61,5% das mulheres recebiam até um salário-mínimo, ao passo que 39% dos homens recebiam a mesma remuneração. Na faixa de dois a cinco salários-mínimos, encontravam-se 6,4% dos homens e 3,4% das mulheres. 

PC – No perfil dos jovens entrevistados emerge um dado significativo sobre o trabalho de crianças e adolescentes e suas consequências para o fluxo de escolarização. Dos entrevistados que declararam trabalhar e estudar em algum momento de sua trajetória escolar, 30% abandonaram a escola no Ensino Fundamental. Quase 5% dos entrevistados responderam ter começado a trabalhar com menos de 10 anos, 21% o fizeram entre 10 e 15 anos, e 41% entre 16 e 18 anos. No Ensino Médio, trabalhar e estudar simultaneamente foi fator de impacto para muitos, principalmente naquilo que se refere ao abandono. Dos que já trabalharam e estudaram, 58,1% nunca abandonaram os estudos; para aqueles que nunca trabalharam, 74,6% nunca abandonaram. O percentual de quem trabalha e estuda é relativamente proporcional na repetência em relação aos que não trabalham. Entretanto, para o abandono há diferenças. Aqueles que trabalham e estudam enfrentaram mais dificuldade de permanecer na escola. Indagados a respeito dos motivos do abandono, 34,7% dos respondentes apontaram o trabalho como o principal responsável, sendo esta a resposta mais frequente. Ao mesmo tempo, o trabalho não é vivido por esses jovens apenas como sobrecarga, mas também representa campo de ampliação da autonomia e da constituição positiva da subjetividade juvenil.

Quais são os maiores desafios e as maiores motivações para os jovens ouvidos seguirem na EJA?

PC – Os jovens, principalmente aqueles que vivem na fronteira das responsabilidades da vida adulta, percebem que a baixa escolaridade é fator de agravo às condições de vida. Quando um supermercado anuncia vaga de emprego para caixa e diz “exige-se Ensino Médio”, sinaliza para o jovem que, somente com o Ensino Fundamental, suas chances de melhoria de vida são escassas. Contudo, as motivações para retornar à escola e seguir os estudos são múltiplas e não apenas diretamente ligadas às exigências do mercado de trabalho. Um mesmo elemento da vida, trabalhar ou ser pai e mãe, por exemplo, pode, em determinado momento, ser obstáculo à continuidade dos estudos ou fator de motivação da retomada da escolarização. Existe um custo material, social e econômico para permanecer na escola. Estudar em condição de pobreza é um desafio imenso. Daí a importância das políticas públicas que incidem sobre os níveis da renda das famílias populares e criam condições para que a escola não se apresente como um tempo concorrencial com a manutenção da vida. É possível perceber um certo traço “heroico” desses jovens “fora de série”, que superam desafios cotidianos gigantescos em sua insistência em perseguir o direito à educação em condições sociais tão adversas. Ao considerarmos também as próprias dificuldades que as escolas públicas no Brasil enfrentam para ofertar educação de qualidade, podemos acrescentar umas tantas outras pedras no caminho para a conclusão da Educação Básica de jovens das camadas populares.

AKB – Os suportes agenciados para enfrentar os desafios da vida não se definem, apenas, como apoio material. Eles podem ser expressos em uma relação afetiva, ou em uma representação positiva – um personagem de um filme, uma história de superação, por exemplo. Alguns jovens da pesquisa falaram da importância dos colegas – que se apoiam e preocupam-se uns com os outros –, dos professores que se interessam pelo cotidiano vivido por seus alunos, do apego a determinados conteúdos que despertam interesse especial de estudo. No grupo de discussão apresentado em nosso filme há uma passagem em que os jovens evidenciam que a escola pouco valoriza suas experiências de vida e de trabalho na apresentação dos conteúdos escolares. O que nos dizem é que a escola poderia se abrir mais para o que eles e elas sabem e fazem, para além da vida escolar.

PC – Essa é uma das dimensões centrais dos ensinamentos de Paulo Freire que as escolas nem sempre acionam: o reconhecimento daqueles saberes da experiência trazidos pelos educandos e que, em grande medida, são desperdiçados em processos educacionais não dialógicos. 

AKB – Percebemos, nas entrevistas, certa solidão dos jovens na tarefa de escolarizar-se. As políticas educacionais em geral, e, em particular as de EJA, não têm alcançado as necessidades materiais e simbólicas dos jovens brasileiros para que concluam seu percurso básico de escolarização. A jovem Maria, personagem de nosso filme, narra uma condição bastante comum entre jovens populares que são levados a escolher entre a garantia do presente e a conquista do futuro. Ela lembra o dia em que decidiu não mais estudar: “o aluguel estava atrasado e eu estava muito cansada por fazer hora extra. Decidi aumentar minha carga horária de trabalho e deixar de estudar. A escola ia me ajudar, mas no futuro; naquele momento eu precisava do trabalho”.

O que destacaria como os principais pontos de reflexão que o Fora de série traz com relação à EJA?

PC  Vemos no Brasil se acentuarem as desigualdades sociais e a ampliação dos níveis de pobreza que, há alguns anos, haviam sido reduzidos, ainda que de modo insuficiente. A multiplicação das desigualdades sociais e o estigma sobre os jovens pobres e negros, público majoritário da EJA, em especial, se acentua. Os sistemas públicos enfrentam graves dificuldades para constituírem políticas estáveis, articuladas e adequadamente financiadas para que possam ser capazes de integrar ações que não se resumam a mudanças curriculares pontuais e projetos especiais de fôlego curto e pouca abrangência. Os jovens do nosso “fora de série” não nos dão respostas prontas para a definição de políticas públicas – e nem era esse o objetivo da pesquisa –, porém, em suas narrativas e modos de representar biografias e cotidianos escolares e não escolares, nos oferecem pistas para reorientar muitas de nossas práticas pedagógicas e linhas de formulação e execução de políticas de EJA. A educação brasileira encontra-se aprisionada por lógicas que homogeneízam cotidianos escolares e destituem instituições e profissionais da educação de sua margem de autonomia. As vozes que ecoam no “fora de série” nos lembram do desafio de reencontrar uma educação humanista e plural, que produza sentidos de presença na escola e reconheça os indivíduos em suas singularidades.

AKB – Um ponto a destacar no atual cenário nacional é a necessidade de compreensão radical de que a EJA é o lugar da recolocação do direito à educação aos cidadãos brasileiros, e não uma saída de arranjo mínimo para a inserção precarizada de jovens e adultos pobres no mercado de trabalho. Nosso filme ajuda a colocar a EJA, reiteradamente pouco prestigiada na educação brasileira, no centro do debate. OFora de série é um filme ancorado em narrativas que colocam em cena uma dimensão pouco tratada no processo de escolarização, qual seja, a necessária atenção para os percursos individuais que frequentemente são invisibilizados em processos massificadores de ensino.

PC – A metodologia que adotamos no processo qualitativo da pesquisa e que se evidencia no filme investiu na criação de dispositivos reflexivos de evocação da memória, de fotografia e filme produzidos pelos próprios jovens, buscando abrir espaço para que não fossem meros informantes sobre suas vidas. Eles e elas entenderam o convite para a reflexividade e se fizeram autores e intérpretes de sua própria história. Nessa perspectiva, os dispositivos que experimentamos no filme, e outros que possam vir a ser criados no cotidiano da escola, podem se constituir como ferramentas para o diálogo entre saberes, experiências, projetos de vida e aquilo que compõe os conteúdos curriculares intencionados pela escola. 

A partir da pesquisa, seria possível apontar alguns caminhos para que a EJA se torne mais atrativa? 

AKB – Para além do já dito, a oferta de EJA precisa ser tão diversificada quanto as demandas de seu público. É preciso que, no âmbito da formulação das políticas, se aprofunde o conhecimento sobre as realidades locais de tal forma que a oferta de escolarização dialogue com as reais necessidades de territórios, temporalidades e sujeitos. 

PC – Os dados de nossa pesquisa indicam que o abandono é um grave fenômeno que contribui para a desescolarização. Ao abandonar, crianças e jovens tendem a retardar em demasia o retorno à escola. Soma-se a isso a quase ausência de políticas de busca ativa para o retorno daqueles que deixaram de frequentar a escola. 

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