Minoria no eleitorado, jovens querem mudar rumos do Brasil


Dentre os que têm entre 16 e 19 anos e votarão para presidente pela primeira vez, um em cada três é menor de idade. Rejeição a Bolsonaro reflete aversão a conservadorismo e preocupação com problemas como fome e educação.

Rayanne Azevedo – 28/07/202228 de julho de 2022 – DW Brasil

Em outubro, 6,5 milhões de jovens com idade entre 16 e 19 anos votarão para presidente pela primeira vez. Essa fatia do eleitorado pode até ser um segmento minoritário – 4,2% dos 156 milhões de eleitores brasileiros –, mas não está alheia à política e quer interferir nos rumos que o país tomará nos próximos quatro anos.

Prova disso é que, desse universo, um em cada três eleitores ainda não atingiu a maioridade, quando o voto se torna obrigatório por lei. Ou seja: em tese, esses adolescentes vão votar porque querem, e não para evitar ficar em débito com a Justiça Eleitoral. 

“Se você não vota, ou vota nulo, não tem direito de reclamar”, afirma José Araújo, de 16 anos, estudante do segundo ano do ensino médio em Goiânia (GO). Aluno de escola pública, ele conta que ainda não fez a sua escolha, mas já sabe que não pedirá ajuda ao pai, que é “super bolsominion”.

“Conheço gente que não tirou [o título de eleitor] porque sabe que vai ter conflito familiar se votar na oposição”, diz.

Entre suas maiores preocupações, cita a educação e a saúde públicas, os índices de desemprego e o clima de violência e discriminação estimulado pelo “governo opressor” de Jair Bolsonaro.

As críticas ao atual governo foram repetidas por outros jovens ouvidos pela DW Brasil.

O atual presidente é rejeitado por 67% dos eleitores com idade até 29 anos, segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira (27/07). A mesma sondagem mostra que, se dependesse desse segmento, a eleição teria grandes chances de ser decidida já no primeiro turno em favor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – o petista, que aparece com 51% das intenções de voto, poderia chegar à maioria dos votos válidos se descontados brancos e nulos (8%), e considerada a margem de erro de três pontos.

Entre os eleitores de Lula estão jovens como a universitária Elisa Bittencourt, de 19 anos, que trocou Jacareí (SP) por Ouro Preto (MG) para cursar Arquitetura e Urbanismo. Ela diz acompanhar com preocupação o aumento da fome, a alta generalizada dos preços e o sucateamento da educação pública. “Senti no bolso, minha família sente também, mas vejo pessoas em situação muito pior. Os bolsistas da faculdade são os que mais sofrem.”

A fome também é citada pelo paulistano Matheus Takaki, de 16 anos, junto com o medo da violência e do desemprego, dois males que já atingiram pessoas de seu círculo próximo. “Do jeito que tá não tá bom, tem que ter uma mudança”, lamenta o estudante da rede particular.

O paulistano Matheus Takaki, 16, vê de perto o aumento da violência e do desemprego em sua cidade – Foto: Privat

“Bolsonaro não governa para todos”

Para o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) Paulo Carrano, Bolsonaro é mais impopular entre os jovens porque representa um projeto de governo excludente.

“Ele não governa para todos, e sim para a base dele. Os jovens estão olhando para um futuro onde não cabe todo mundo, só um padrão de juventude submissa aos pais, heteronormativa, formatada à imagem e semelhança do conservador de extrema direita”, aponta.

Embora pesquisas recentes sinalizem uma clara preferência do eleitorado jovem pelo ex-presidente Lula, Carrano diz que não dá para afirmar que esse grupo esteja mais à esquerda. É o que também defende o cientista político Marcio Black, da Fundação Tide Setúbal.

“Está tão polarizado o Brasil com esse jogo violento de direita e esquerda, que o jovem tende a rechaçar isso. Eles têm aversão ao cancelamento e à violência”, afirma Black.

Segundo o cientista político, a ideia de conservadorismo, que caracteriza os eleitores de Bolsonaro, costuma ser mais facilmente compreendida – mas é também de longe a mais rejeitada.

A aversão a rótulos e discussões não significa, contudo, que essa geração seja menos politizada. Acontece que a pandemia dificultou esse processo, segundo Daniela Orofino, diretora de mobilização da ONG Nossas. Com escolas, universidades e outros espaços de convivência cruciais para a formação política fechados, esses jovens passaram por um período de instabilidades, agravado agora pela inflação e pelo desemprego, e se sentem muitas vezes inseguros ou têm receio de debater.

“A gente tem visto uma juventude ansiosa, muito desesperançosa”, comenta Orofino. Mas a socióloga pondera que foram esses mesmos jovens que se organizaram para adiar o Enem durante a pandemia e garantir mais recursos para a educação.

É também pela experiência da Nossas, uma das organizações envolvidas na bem-sucedida mobilização da sociedade civil em prol do voto facultativo de jovens, que Orofino diz ver os jovens engajados politicamente.

Beatriz Freitas, 18, de Bandeirantes (PR), se prepara para a faculdade de Medicina – Foto: Privat

“Meu voto vai ser pela mudança”

Paranaense de Bandeirantes, Beatriz Freitas, de 18 anos, estuda para chegar à faculdade de Medicina numa universidade pública. “Acredito que a política engloba tudo. A própria saúde, o SUS, a educação, todas essas políticas estão interligadas”, comenta. Ela se vê em sintonia com a própria geração e em oposição aos pais, que apoiam Bolsonaro. “Meu voto vai ser pela mudança, mas em casa a gente se respeita”, diz.

Tanto ela quanto o carioca Rodrigo Naja, de 18 anos, estão insatisfeitos com a gestão da educação pelo governo e desejam ser mais ouvidos. Rodrigo, que vai ingressar no curso de Serviço Social, se ressente do enfoque quase exclusivo das escolas no Enem. “O conteúdo não se encaixa mais no nosso tempo. A gente sabe redação, matemática, essas coisas. Mas a gente não aprende sobre política ou economia”, afirma.

“Falta estímulo ao debate”

Para o professor Carrano, se os jovens estarão mais ou menos mobilizados nestas eleições, isso será reflexo da sociedade, que em geral confia pouco nas instituições democráticas e não tem estimulado a construção de esferas públicas críticas.

“Falta estímulo ao debate nas escolas, os professores estão sendo acuados, as redes sociais se tornaram um ambiente hostil com as manipulações e as agressões, a política está distante. A gente precisa abrir mais canais de conversação e escuta sincera, onde esses jovens possam entrar em contato com a política sem danos à sua integridade física e mental”, considera.

A estudante da rede pública Thayna Silva, 16, de Ji-Paraná (RO), ainda não decidiu o voto para presidente – Foto: Privat

Se para uns o voto em Lula é certo, outros, como Petrus Kauã, de 17 anos, seguem sem candidato. Aluno da rede particular em Natal (RN), ele diz que tirou o título no embalo das discussões na escola, mas ainda vê a política como algo distante da sua realidade. “Não vai resolver meus problemas, isso vai depender mais de mim. Vejo [a política] mais como uma coisa para pessoas carentes”, conta.

Em Ji-Paraná (RO), Thayna Silva, de 16 anos, também deixa o voto em aberto. A estudante do segundo ano da rede pública quer pensar com calma durante a campanha, pesquisar e conversar com os amigos e a família. Para ela, que não é muito dada a escancarar seus posicionamentos na internet, a política tem o dever de garantir os direitos básicos assegurados pela Constituição, mas tem falhado nisso. Ela sente que a região Norte é deixada para trás, e vê muito por fazer nas áreas da saúde, infraestrutura, educação e cultura.

“Todos esses fatores, em particular a negligência e opressão aos povos nativos, contribuem para um círculo vicioso de decisões políticas equivocadas”, escreve Thayna.

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