Psicologia colonial

Ensaísta tunisiano oferece instrumentos para entender a dificuldade atual de europeus em viver em sociedades cada vez mais plurirraciais

RONALDO VAINFAS
ESPECIAL PARA A FOLHA – São Paulo, domingo, 06 de janeiro de 2008  – Fonte: F.São Paulo

A obra de Albert Memmi figura entre as clássicas para pensar o colonialismo e mesmo sua versão atual, mais complexa, imersa na chamada globalização. Tunisiano de origem judaica, Memmi nasceu em 1921 e migrou para a França logo após a independência do país, em 1956. Concluiu na Sorbonne os estudos iniciados em Túnis, que prosseguira na Universidade de Argel. Nos idos de 1943, passou por tremendas dificuldades em campo de trabalhos forçados da Tunísia. Hoje é professor honorário da Sorbonne e ganhou, entre outros títulos, o Prêmio da Francofonia, em 2004.
As novas gerações talvez não façam idéia do impacto causado pelo primeiro grande livro de Memmi, publicado em 1957, “Retrato do Colonizado Precedido do Retrato do Colonizador”, obra surgida no contexto da descolonização da África, antes da dramática guerra franco-argelina de 1961-62.
Memmi escreveu enquanto intelectuais do porte de Jean-Paul Sartre condenavam o colonialismo, construindo uma opinião pública, sobretudo no campo da esquerda, apoiadora dos movimentos de independência na Ásia e na África. A originalidade da obra de Memmi encontra-se, antes de tudo, na sua recusa a limitar o colonialismo ao conceito leninista de imperialismo ou à luta de classes marxista, adotando posição audaciosa num tempo em que o marxismo irrigava o ambiente intelectual europeu, particularmente francês.
O fato é que Memmi sempre deixou claro que o privilégio colonial não é fenômeno “unicamente econômico”. É “uma relação de povo a povo, e não de classe a classe”, escreveu no prefácio da edição de 1966.
Memmi se dedica, assim, a refletir sobre as identidades e relações entre colonizador e colonizado, tomados em abstrato, no campo da psicologia coletiva e dos valores culturais construídos e/ou introjetados em meio ao fato colonial, concebido este último como um conjunto de situações vividas.
É pioneira a sua reflexão sobre o colonizador como um exilado voluntário que busca nas colônias os meios de uma ascensão social inalcançável na metrópole, e por conta disso se enraíza ou, quando menos, hesita ao máximo em regressar. Constrói, então, uma identidade ambivalente em parte ancorada nos valores colonialistas, em parte na valorização da colônia, à exceção do povo nativo.
No retrato do colonizador pintado por Memmi, seja o grande, seja o pequeno colonizador, combinam-se a ambição de lucro, o apego aos privilégios institucionais, a legitimação da usurpação que faz das riquezas do colonizado, o racismo, o sentimento de superioridade cultural. Ainda que a imensa maioria dos colonizadores não tenha consciência nítida de seu papel histórico, todos tendem a compartilhar desses valores.
Nos extremos dessa posição majoritária estariam, de um lado, os colonialistas, isto é, os agentes da colonização, e de outro, os “colonizadores de boa vontade”, porque menos apegados aos valores metropolitanos. Nem todo colonizador, diz Memmi, está fatalmente destinado a tornar-se um colonialista. Mas esses colonizadores são raros, segundo Memmi, “pois o romantismo humanitário é considerado doença grave, o pior dos perigos: não é nem mais nem menos que a passagem para o campo do inimigo”.
“No fim das contas, o colonialista é a vocação natural do colonizador.” A atitude generalizada é, portanto, a de rejeitar o colonizado, seu rosto, seu cheiro, sua cor, sua cultura. Só come pela primeira vez o cuscuz movido pela curiosidade, depois o prova por educação, vez por outra, e, se gosta do cuscuz, reclama do barulho da feira, da música árabe, do cheiro de gordura de carneiro que impregna o ar. É nas mesquinharias do cotidiano que se afirma esta identidade do colonizador, segundo Memmi, diante do colonizado.
No pólo oposto, o colonizado é um tipo ao mesmo tempo indignado com a humilhação e opressão inerentes ao fato colonial, porém amante, em graus variados, da cultura do colonizador. O mais dramático é a introjeção dos estigmas lançados pelo discurso colonialista, a exemplo de que todo colonizado é ladrão, preguiçoso, sujo, medíocre, desprezível.
O ressentimento contra a metrópole é inevitável, alimentado pelo desprezo de si e pela desumanização ou despersonalização provocada pelo colonialista. Para enfrentar o drama, os colonizados têm somente duas alternativas. A primeira deriva do paradoxal “amor pelo colonizador e ódio de si” e, nesse caminho, o mínimo que o colonizado deseja é “mudar de pele”, mudar de cor, deixar de ser este “outro” desprezível. A segunda é a revolta em busca da auto-afirmação.
Não resta dúvida de que há muitos estereótipos na obra de Memmi, combinados a uma boa dose de ressentimento, mas o livro é um documento formidável dos anos 1950-1960. De todo modo, Memmi termina a obra com alguma esperança romântica nos resultados da descolonização, apostando em que o ex-colonizado se poderá transformar “num homem como os outros”, eliminando as diferenças em relação ao ex-colonizador.
Em recente livro, publicado em 2004 e também traduzido pela Civilização Brasileira, Memmi admitiu sua desolação. É o que se pode ler em “Retrato do Descolonizado Árabe-Muçulmano e de Alguns Outros”, no qual examina a condição do descolonizado nas ex-colônias e nas antigas metrópoles, enquanto imigrante.
Denuncia as tiranias, pobreza e corrupção vigentes nos países africanos e aprofunda o exame das vivências do imigrante, as feridas da humilhação, os arroubos pseudolibertários das mulheres que insistem em usar o véu que antes não usavam, o complô dos “homens de turbante”, a situação especial dos filhos de imigrantes, cada vez mais ocidentalizados.
Nesse ponto, o novo livro de Memmi oferece lições preciosas para compreender a dificuldade atual dos europeus em viver em sociedades cada vez mais plurirraciais e multiculturais, bem como os dilemas identitários dos imigrantes muçulmanos nesses países. Albert Memmi conhece muito bem, há muito décadas, o drama do fato colonial no plano das vivências. Mas quem é ele exatamente? Colonizador ou colonizado? É Jean-Paul Sartre quem responde, sugerindo que Memmi diria: “nem uma coisa, nem outra; vocês talvez digam uma coisa e outra; no fundo dá no mesmo”.

RONALDO VAINFAS é professor titular do departamento de história da Universidade Federal Fluminense.


RETRATO DO COLONIZADO PRECEDIDO DO RETRATO DO COLONIZADOR
Autor:
Albert Memmi
Tradução: Marcelo Jacques de Moraes
Editora: Civilização Brasileira (tel. 0/ xx/21/ 2585-2000)
Quanto: R$ 30 (192 págs.)

RETRATO DO DESCOLONIZADO ÁRABE-MUÇULMANO E DE ALGUNS OUTROS
Autor:
Albert Memmi
Tradução: Marcelo Jacques de Moraes
Editora: Civilização Brasileira
Quanto: R$ 30 (192 págs.)

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