Claudia Trindade, Daniela Fichino, Gabriela Buscácio e Lia Rocha: Enterraram uma semente

Mataram Marielle, nossa amiga, porque não suportaram uma negra, favelada e feminista enfrentando os poderosos do Rio; mas não nos calarão

Marielle Franco_fala na Tribuna
A vereadora Marielle Franco, assassinada no dia 14, fala na tribuna da Câmara Municipal do Rio em sessão em novembro de 2017 – Mario Vasconcellos/Câmara Municipal do Rio/AFP

Em certo momento da vida nos juntamos em uma só, viramos sereias. Era a nossa brincadeira. Cinco mulheres, de diversas idades e profissões reunidas numa irmandade de cuidado, proteção, política e amor. Entre nós, tínhamos nossa leoa: negra, favelada, bissexual, com uma força que nos reunia em torno de nós mesmas: Marielle.

Ela, assim como nós, era feminista, defensora dos direitos humanos e lutava no seu dia a dia para o fim do machismo, do patriarcado, do genocídio da juventude pobre e negra das favelas. E nossa amiga decidiu, após tantos anos de militância e trabalho, representar a todas nós também no Parlamento.

Foi uma campanha linda, sem precedentes na história da cidade do Rio, que reuniu milhares de pessoas em torno de tudo aquilo que ela representava. Foram mais de 46 mil votos que ela recebeu, e nosso orgulho não cabia no peito da vitória acachapante que Marielle teve.

Sua carreira política estava em ascensão, e seu protagonismo na causa das mulheres, dos direitos humanos, e da população negra, favelada e trabalhadora era inquestionável. Não se conseguia imaginar até onde Marielle poderia ir, mas sabíamos que iria longe, levando consigo lutadoras e lutadores de causas tão importantes.

No fim do dia 14 de março, assassinaram Marielle. Interromperam sua vida, assim como a de Anderson Gomes, na região central, a poucos metros da sede da Prefeitura.

Execução. Foi isso o que aconteceu nessa terrível noite. Foi um crime político, com o objetivo de calar uma voz que se opunha à crescente militarização da vida, aos abusos e arbítrios das políticas de segurança e à violência sofrida especialmente pelas mulheres periféricas em decorrência da guerra deflagrada pelos aparatos estatais contra os territórios de pobreza cariocas.

Vivemos um contexto de crescimento do autoritarismo no país, sendo o golpe um ponto de inflexão no aprofundamento das arbitrariedades. Em um capítulo seguinte, a intervenção federal no estado do Rio—que delegou a segurança dos cidadãos fluminenses às Forças Armadas, em total desrespeito às atribuições constitucionais dessa corporação— radicalizou ainda mais os ataques à democracia e aos direitos civis, políticos e sociais.
Ao mesmo tempo, intensificou a exposição pública de discursos conservadores de inspiração fascista, que pregam o extermínio como forma de combater o crime e o aniquilamento dos considerados diferentes —negras e negros, favelados, gays, trans, feministas e todo o espectro diverso de nossa sociedade vistos como indesejáveis.

E era contra tudo isso que Marielle Franco se posicionava. Para defender a existência dos “indesejáveis”, ela se expunha com toda a coragem que a caracterizava desde que começou sua militância política no Pré-Vestibular para Negros e Carentes da Maré. Marielle lutava por eles, era igual a eles, também uma “indesejável”.

Negra, favelada e de esquerda, representava tudo o que mais temem os que odeiam a liberdade, a democracia, a diversidade e a igualdade: era uma guerreira.

Por isso a mataram. Os covardes, machistas, racistas que não suportaram uma negra, favelada e feminista na Câmara, enfrentando os poderosos da cidade, que não suportaram ver a potência da negritude e ancestralidade que carregava, o simbolismo de sua figura gigante. Sua morte é um duro golpe na aparência de normalidade que vivemos.

Levaram uma parte nossa. De cada uma de nós. Mas também de cada pessoa que votou nela em 2016. De cada uma das cem mil pessoas que se reuniram durante a última quinta-feira no Rio. Eles não nos calarão.

Continuaremos juntas, lutando todos os minutos de nossas vidas para acabar com o patriarcado, com o machismo, com o assassinato de pretos e pobres. Não é só por nós: é por Luyara, Ana Flor, Helena e Beatriz. Eu sou porque nós somos! Nós seremos resistência porque você foi luta! Marielle Franco vive!

CLAUDIA TRINDADE, professora de história, é militante do PSOL; DANIELA FICHINO, advogada, é ativista de direitos humanos; GABRIELA BUSCÁCIO, professora de história, é militante da educação; LIA ROCHA, professora de sociologia, é militante sindical

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/…/claudia-trindade-daniela-fi…

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