O jovem brasileiro e a escola diante da precarização da vida e de desafios democráticos

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Publicado originalmente no Observatório da Juventude na Íbero-América 04.0919

É comum que debates sobre os jovens oscilem entre duas representações exageradas e problemáticas.A primeira considera o jovem como herói solitário capaz de superar todos os obstáculos, desde que empreenda os esforços pessoais necessários. A segunda, que tende a ser perversamente moralizante, desconfia dos jovens, de seus gostos, valores, espaços-tempos de relacionamentos e capacidades de tomar decisões com liberdade e responsabilidade pessoal e social. Entre essas duas figuras narrativas alienadas sobre os jovens – o  “jovem herói” e o “jovem problema” – existem múltiplas e reais formas de ser jovem, que cobram às instituições do mundo adulto, notadamente famílias e escolas, esforço contínuo de escuta e diálogo.

A Juventude se expressa por uma faixa de idade. No Brasil, são jovens aqueles/as entre 15 e 29 anos (Estatuto da Juventude), e adolescentes os/as com idades compreendidas entre 12 e 18 anos (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA). Em 2017, o Brasil tinha 48,5 milhões de jovens entre 15 e 29 anos. Mas “juventude” é também produzida pelas representações sobre as idades. Representações essas que podem adquirir o caráter de estigma – imagem deteriorada –, quando se trata de jovens que não se encaixam no padrão branco, masculino e dominante de uma sociedade que se estruturou na base da desigualdade entre as classes sociais, sob a égide do patriarcalismo e por uma pesada herança escravocrata que, mesmo depois de mais de um século de abolição da escravatura, ainda incide negativamente sobre a população negra e indígena. A pobreza, a falta de oportunidades sociais e econômicas para jovens moradores de territórios empobrecidos, e a representação negativa, que transforma negros em alvos preferenciais das forças policiais, fazem com que o índice de assassinato de jovens negros seja superior a qualquer outra parcela da população. As vítimas de homicídio no Brasil têm cor.

Segundo o Atlas da Violência (2019:49)[1]:

Em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios foram indivíduos negros (definidos aqui como a soma de indivíduos pretos ou pardos, segundo a classificação do IBGE…), sendo que a taxa de homicídios por 100 mil negros foi de 43,1, ao passo que a taxa de não negros (brancos, amarelos e indígenas) foi de 16,0. Ou seja, proporcionalmente às respectivas populações, para cada indivíduo não negro que sofreu homicídio em 2017, aproximadamente, 2,7 negros foram mortos. Em 20 anos (entre 1997 e 2017), o número de jovens negros assassinados aumentou 429%, ante 102% de jovens brancos.[2]

Ao dizermos que não existe “a” juventude, mas juventudes, buscamos enfatizar a multiplicidade de maneiras de ser jovem num mundo de desigualdades, violências e oportunidades diferencialmente distribuídas conforme a cor da pele, o gênero, a classe social e o local de moradia.

No Brasil de hoje,  o receituário econômico neoliberal se tornou política de governo. A redução do papel do estado, a  abolição de direitos sociais e trabalhistas, e o desmonte de políticas sociais de combate à pobreza promovem o aprofundamento das desigualdades e aumentam o nível de incerteza dos setores mais desprotegidos da sociedade. O estado e as múltiplas instituições sociais não geram suportes suficientes para apoiar os trânsitos dos jovens dos setores empobrecidos da sociedade rumo à vida adulta. Esta constatação sobre o agravo nas condições de vida nos parece vital para compreender as condições das quais jovens pobres partem para se relacionar e seguir frequentando a escola.

Em sociedades em que o trabalho se tornou flexível, mas também precário e desprotegido, em contextos de vida e trabalho em que a noção de progresso e carreira desaparecem e garantias sociais não mais se impõem como um imperativo de conquistas de classes e organizações de trabalhadores, o campo da inserção laboral torna-se cada vez mais incerto e individualizado. Os intensos processos de terceirização e desproteção social da força de trabalho, de diminuição da relevância dos sindicatos e o predomínio no mercado de trabalho das empresas de intermediação de trabalhadores precarizados dão o tom desse processo de fragmentação do campo laboral.

É inegável o lugar do trabalho na constituição da vida social e das individualidades. Contudo, é evidente que o mesmo já não possui o papel integrador que assumiu em outros momentos da história das sociedades, notadamente as urbanas. A identidade do trabalho se articula com outras dimensões societárias, quer sejam de gênero, raça, geração ou território e cultura. Algumas características que emergem dos estudos sobre a relação entre os jovens e o trabalho assinalam que essas outras referências se manifestam no quadro da fragilização do lugar do trabalho e dos diplomas profissionais na constituição do “ser trabalhador”. E neste quadro é possível apontar como elementos dessa indeterminação identitária o peso da informalidade, da desproteção no campo dos direitos, da indeterminação das trajetórias não mais previsíveis tal como denotava o sentido de “carreira”, a pluriatividade e a heterogeneidade de atividades, quer seja por alternância ou concomitância em jornadas diárias, semanais ou mensais. Soma-se a isso a forte atração dos espaços-tempos do consumo e dos sentidos culturais do agir individual e coletivo nos tempos livres, na produção das subjetividades juvenis.

Os jovens das classes populares empreendem uma dura e desprotegida luta, que combina trabalho e permanência na escola. Contudo, é preciso dizer que neste quadro de crescentes incertezas e de diminuição das margens de previsibilidade de futuro, jovens, ainda que não renunciem à escola, desconfiam da força dos diplomas e da validade dos saberes escolares formais na busca pelo trabalho.

Diante dos imperativos da superação de necessidades objetivas e de construção do próprio campo de autonomia, a “fabricação de si” ocorre em campo de fortes interdições econômicas e simbólicas, que tendem a ser agravadas quando há ausência de suportes na forma de políticas públicas estruturantes e efetivas para a realização da travessia entre os mundos da família, da escola e do trabalho.

É possível notar que mesmo diante de graves restrições no campo da proteção social e da existência de oportunidades reais de inserção produtiva, jovens buscam alternativas e inventam a vida de diferentes e criativas maneiras.

Reconhecidas as distinções que posicionam os indivíduos jovens em diferentes lugares sociais e culturais, é preciso reconhecer também traço geracional comum, que diz respeito às intensas transformações pessoais e societárias relacionadas com o amplo processo de desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação (TICs) e das redes sociais tecnológicas e digitais.

Os jovens possuem, hoje, um campo maior de autonomia frente às instituições do denominado “mundo adulto” para construir seus próprios acervos e identidades culturais. Há uma rua de mão dupla entre aquilo que herdam e a capacidade de cada um construir seus próprios repertórios culturais. Se, por um lado, em sociedades simples e de autoridade verticalizada o “eu” é uma herança. Por outro lado, um  dos princípios organizadores dos processos produtores das identidades em sociedades complexas diz respeito ao fato dos sujeitos selecionarem as diferenças com as quais querem ser reconhecidos socialmente. Isso faz com que a identidade seja muito mais uma escolha e um trabalho de reflexividade sobre si do que uma imposição. Uma das mais importantes tarefas das instituições educativas seria a de contribuir para que os jovens pudessem realizar escolhas conscientes sobre suas trajetórias pessoais para constituir autonomamente seus próprios acervos de valores e conhecimentos.

Os jovens fazem seus trânsitos para a vida adulta no contexto de sociedades produtoras de riscos – muitos deles experimentados de forma inédita, tal como o desemprego continuado, a ameaça da destruição ambiental e as múltiplas violências em áreas urbanas e rurais –, mas também experimentam processos societários com maiores campos de possibilidades para a realização de apostas frente ao futuro. A escola, em especial a de ensino médio, constitui-se em espaço-tempo cultural privilegiado de promoção de suportes para que jovens elaborem seus projetos pessoais e profissionais para a vida adulta.

A escola encontra-se diante de indivíduos que são muito mais do que alunos ou alunas. Os múltiplos tempos e espaços de constituição das subjetividades juvenis transcendem em muito o espaço-tempo da escola. Adolescentes e jovens instauram cotidianos cada vez mais autônomos de interações, que os afastam das referências do mundo adulto, em especial, de seus pais e professores.

É possível falar numa “esfera de autonomia juvenil” (Barrière, 2011)[3]. Os adolescentes de hoje realizam inúmeras atividades fora da escola – não apenas de entretenimento –, que se constituem em verdadeiros investimentos pessoais mediados pelo gosto pessoal. Este verdadeiro “currículo” não escolar, desenvolvido em torno de atividades explicitamente educativas e outras diretamente relacionadas com a sociabilidade, conforma um conjunto heterogêneo de atividades que, através dos grupos de pares e da cultura juvenil, ampliam a autonomia. Dessa forma, “os testes”, provas ou desafios não seriam apenas os da escola, mas o deste amplo campo de atividades de ocupação do tempo juvenil. E, no caso dos jovens brasileiros, o tempo dispendido com atividades relacionadas com o mundo do trabalho é significativo, notadamente para os jovens das classes populares. Em outras palavras, podemos daí depreender que a escola não está sozinha no “universo educativo”. Desta forma, a instituição escolar e seus profissionais  precisam aprender a arte do diálogo com os outros espaços-tempos constituidores das experiências e subjetividades de seus jovens estudantes.

Para Marilia Spósito (1999)[4], as culturas juvenis se apresentam como campo de possibilidades “de práticas coletivas e de interesses comuns, sobretudo em torno dos diferentes estilos musicais”. Os jovens estariam mais motivados em se envolver em temas culturais, em comparação ao seu afastamento das formas tradicionais de participação política. A música – elemento importante da cultura juvenil – apresenta-se, assim, como aglutinadora de sociabilidades e, por isso, permitiria aos jovens a possibilidade de participação e atuação efetiva nas questões relacionadas com a sua comunidade e como interlocutor com determinados setores da sociedade civil. É preciso admitir a existência de significativa diversidade de práticas coletivas entre os jovens, ainda pouco visíveis e escassamente investigadas.

A escola silencia e promove a invisibilidade de práticas culturais e políticas que não se encaixam nos cotidianos escolares institucionalizados e pouco abertos para as expressividades juvenis. Nesse contexto, o jovem é homogeneizado na condição de aluno que necessita responder positivamente aos padrões do “ser estudante” que almeja a instituição. De um modo geral, são poucas as margens de diálogo entre aquilo que a instituição busca empreender como projeto educativo, as práticas culturais juvenis, e mesmo as experiências singulares de seus jovens estudantes. Em sociedades de alta complexidade, como as nossas, o indivíduo autônomo é resultado de uma intensa e contínua “fabricação” de si mesmo.

Diante da insegurança e da incerteza frente ao futuro, jovens encontram refúgio no presente. A descrença nas instituições pode significar resposta crítica ao que herdaram do passado ou mesmo incapacidade de imaginar o futuro como esperança. O refúgio na “utopia do consumo” no tempo presente pode expressar a experiência de subjetividades fragmentadas, que não dialogam com as dimensões temporais do passado e do futuro. Contudo, é na compreensão dos processos históricos e na imaginação de novos mundos possíveis que jovens criam condições para o surgimento de oportunidades nesse quadro societário de incertezas e bloqueios ao desenvolvimento das biografias juvenis; bloqueios tão mais graves quanto menos oportunidades e suportes sociais e familiares os jovens tiverem.

É na perspectiva da criatividade possível que famílias e escolas precisam dar atenção especial aos espaços de sociabilidade e conectividades digitais, não com o intuito de controlar espaços-tempos e iniciativas juvenis mas de compreender os fluxos e sentidos das interações e experiências. Neste diálogo, nem sempre fácil entre gerações, podemos contribuir para o surgimento de novas comunidades educativas comprometidas com a vida democrática. Esse é um desafio civilizatório de um tempo em que a destruição de direitos sociais, a intolerância com a diferença e a mercantilização das relações sociais e da própria vida ganham espaço como respostas regressivas para o quadro de crise econômica estrutural, escassez de oportunidades, alterações climáticas e profundas contradições sociais.

Escolas necessitam se constituir enquanto comunidades socioculturais que coloquem todos os conhecimentos em discussão numa perspectiva social e histórica. Escolas que sejam capazes de estabelecer equilíbrio entre competição e cooperação no jogo da aprendizagem. E que não se furtem em promover diálogos democraticamente mediados sobre diferentes aspectos da vida social e política que envolvam a comunidade escolar e a vida social mais ampla.  Escolas democráticas, enfim, que transformem conflitos e problemas em possibilidades de superação através de encontros interculturais que ampliem formas de conhecer e intercambiar experiências orientadas para o convívio com a diferença, a negação da intolerância e atualização dos sentidos éticos e políticos das noções de Cidadania e Democracia no tempo presente.

Autor: Paulo Carrano

*Professor Dr. Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense. Coordenador do Grupo de Pesquisa Observatório Jovem do Rio de Janeiro. Pesquisador do CNPq – nível 2

Notas:

[1] Atlas da violência. /Organizadores: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Publica. Brasília: Rio de Janeiro: São Paulo: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2019.

[2] Ver Pesquisa realizada pela Fundação Abrinq em: Carta Capital. Assassinatos de jovens negros no Brasil aumentam 429% em 20 anos. Disponível na internet:  https://www.cartacapital.com.br/sociedade/assassinatos-de-jovens-negros-no-brasil-aumentam-429-em-20-anos/ Consultado em 19.08.2019

[3] BARRÈRE, Anne. L’éducation buissonniàre: Quand les adolescents se forment par eux-mêmes. Paris: Armand Colin, 2011. 228 p.

[4] SPÓSITO, Marília Pontes. Uma perspectiva não escolar no estudo sociológico da escola. Revista Usp, São Paulo, v. 1, n. 57, p.210-226, maio 2003. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/33843&gt;. Acesso em: 03 jul. 2016. Tags: Brasil, convivência, Integração social, Participação Política

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